segunda-feira, 6 de março de 2017

Contos do sertão: gato preto em noite escura.

Foi lá pras bandas de Paraguaçu Paulista, na década de 30. Vinham meu avô e mais um companheiro, moradores de fazendas vizinhas e amigos de longas datas. Meu avô, morador da fazenda Cristal, até hoje administrada pela família, já quase na quarta geração. Ao lado, Borá, o menor município do estado de São Paulo, fundado pela nossa família, após chegar da Itália, no final do século XIX. Os dois companheiros vinham conversando animadamente na tarde que se punha no horizonte,  quando o sol traçava nesgas coloridas de azul, vermelho e alaranjado. Calor de mês de Março, e a estradinha de areia branca, ladeada por matas de ambos os lados, parecia quase sem fim já no lusco-fusco da noite que se avizinhava. Nada se ouvia, além da conversa dos dois homens e dos pássaros procurando se agasalhar em busca de seus abrigosa fim de se esconder da escuridão. Meu avô, destemido, homem de luta e de muita coragem, procurava conversar animadamente, a fim de esconder sua preocupação de que a noite cairia e os pegaria em cheio ainda no meio da jornada. Não que houvesse perigos reais; naquela época os homens desconheciam as ameaças que permeiam atualmente nosso meio rural e urbano. O perigo, de fato, era o sobrenatural, e esse era respeitado sem distinção e descrença. Todos conheciam as lendas e "causos" que andavam de boca em boca por aquelas bandas de um Brasil rural e sertanejo que há muito deixou de existir. Hoje, só lembranças e memórias dos mais antigos. Meu avô sabia que, a certa altura do caminho, os dois amigos teriam de se separar, cada um tomando direções opostas, dirigindo-se às suas fazendas. Depois de mais ou menos duas horas de cavalgada, uma encruzilhada de terra branquinha, já refletindo a Lua cheia, prateando no céu, insinuava que era hora de ambos tomarem seus caminhos de casa. O companheiro de meu avô, sentindo os cavalos ressabiados e empacando o trote, olhou para os lados e, ao virar-se para trás, à distância, percebeu um gato preto que já vinha acompanhando os dois cavaleiros, quem sabe já por muito tempo. Comentou com meu avô, surpreso pela insólita aparição, o que estaria fazendo um gato preto por aqueles lados, há léguas de distância de qualquer casa ou moradia. Não lhes pareceu ser um gato do mato, e isso causava arrepios e certezas de que coisa boa não era para ser. Na encruzilhada, meu avô tomou a estrada da direita e seu compadre tomou a estradinha, ainda ladeada por matas fechadas, comuns por aqueles tempos. Todavia, o desassossego tomava conta de ambos. Que seria aquela visão do gato preto como breu? Cavalgaram por algum tempo, em separados, indo na direção de suas respectivas moradas. A Lua brilhava no céu ponteado de estrelas e os pirilampos acendiam suas luzes, piscando dentro da mata cerrada, dando a impressão de olhos observando os caminhantes solitários. Podia se ouvir cliques de gravetos, quebrando-se na floresta, ao pisar dos animais de médio porte, e as corujas piavam nos tocos, saudando a noite com seu ruído lúgubre. Lá pelas tantas, com a Lua brilhando e abrindo os caminhos à frente, meu avô pôde ouvir berros, gritos de desespero, cortando a noite e a mata, fazendo o eco ser ainda mais aterrorizante. Veio-lhe à mente a lembrança da aparição do bicho que os acompanhara por um trecho, e logo pensou: "foi o gato"! Sabia que algo muito ruim havia acontecido com seu companheiro, e só lhe restava ir em seu socorro, já que nenhuma outra viva alma poderia fazê-lo naquele momento. Virou o cavalo na estradinha clareada pelos raios prateados, mas ainda assim escura pela sombra das árvores ao derredor e, acompanhando os gritos e gemidos cada vez mais abafados e apavorantes, percebeu que vinham de uma mata fechada e cheia de cipós. A coragem falhou naquele momento; falharia para qualquer outro mortal, avizinhando já o que poderia ter-se dado, naquele ermo em que os homens se encontravam, e até os mais intrépidos vacilam na coragem. Aproximando-se de onde vinham os gritos, cortando galhos e troncos com o facão, chegou a um emaranhado de cipós que prendiam cavalo e cavaleiro, mostrando ser quase impossível que, sozinho, seu amigo pudesse se libertar daquela armadilha macabra e aterrorizante. Contou-lhe o companheiro, enquanto lhe cortava os ramos e trepadeiras enleadas pelo corpo, que fora o gato o autor da façanha diabólica. Após alguns minutos cavalgando a sós, percebeu que o cavalo resfolegava e empacava, guiado pelo sexto sentido comuns aos equinos, ao sentir a presença do mal, do tinhoso, do emissário das trevas, ameaçando a vida de ambos, animal e cavaleiro. O gato, tomando um volume descomunal, montara na garupa do cavalo, fazendo com que este desembestasse num galope desenfreado, levando no peito galhos, folhas, gravetos e cipós, enquanto um cheiro mórbido de enxofre se espalhava pelo ar. A "coisa" então guiava o cavalo pela mata, passando por entre galhos e folhas, troncos, até se embrenhar em cipós, e prender a ambos, imobilizados pelo cansaço e pelo pavor, numa prisão maquiavélica e era para ser fatal. Gritou então o companheiro de meu avô, "em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo sangue derramado na cruz, afasta de mim esta besta e que volte de onde saiu". Houve um estrondo, um ruído como nunca ouvira antes, e uma coisa do mal que carregara na garupa, atrás de si, saltou no ar, deixando o cavalo mais leve, para desaparecer no escuro sombrio da mata e da noite. Sentiu-se novamente asfixiado pelo cheiro de enxofre espalhando-se no ar, seguido de um silêncio que arrepiava o corpo todo. Restava-lhe somente, naquele matagal e na escuridão da noite, gritar pelo meu avô, pedindo socorro. Depois de muito tempo, quando o dia já vinha se acercando dos dois homens e da mata cerrada, já libertos das tramas do cramunhão, ambos puderam tomar o caminho de casa, cada um na sua direção, certos de que o invisível, o sobrenatural, chega quando menos se espera, sem dia e sem hora marcados. 

Neide Albano