sexta-feira, 17 de março de 2017

A choupana no meio do nada.

Isso aconteceu há muito tempo, e eu me lembro bem que sentávamos na varanda de nossa casa, todas as irmãs com os namorados, contando "causos" de medo, de aventuras, de fantasmas...Era um tempo mágico, quando a preocupação maior não passava das leituras da moda, dos passeios, e do cinema no sábado à noite. Meu atual cunhado, à época só um pretendente de uma de minhas irmãs mais novas, vivia mais trabalhando no estado de Mato Grosso e enfiado naquele mundão de meu Deus, do que praticamente envolvido com as distrações da nossa geração. O que vou contar passou-se numa de suas muitas viagens até Barra do Garças, que fica bem adiante de Cuiabá. Sem GPS, fone celular e outros recursos, a comunicação com os que ficavam para trás era deveras precária. Nessa viagem, que duraria em média de 4 a 5 dias até a fazenda de seu pai, deu-se um fato, no mínimo inexplicável, para não usar o termo assustador e fantasmagórico. As estradas eram quase todas de terra batida, quando se saía das rodovias federais, sendo que era preciso enfrentar esse desafio de poeira, animais selvagens cruzando o caminho, além de bandidos que se embrenhavam no Mato Grosso para escapar da justiça. Os perigos eram muito menores comparados com a nossa realidade atual, todavia existiam, e se exigia coragem e sangue-frio para chegar ao destino incólume. Estava ele numa dessas viagens, já bem para frente de Campo Grande, num dia de muito calor, poeira e sol quente. A tarde vinha caindo e, com a noite bem próxima, sentiu que não alcançaria um povoado, ou alguma casa na beira da estrada onde pudesse se acomodar na camionete e dormir até o dia começar a raiar. Olhando pelo retrovisor, percebeu que não estava sozinho, os faróis de um outro veículo indicavam que alguém mais estava fazendo o mesmo caminho. Sentiu-se incomodado quando, após ter vencido um belo trecho de estrada, o tal do veículo não o ultrapassava, permanecendo sempre a uma certa distância. Para completar o quadro intrigante, passou por dois caboclos na estrada de terra, sendo que estes mais que depressa acenaram, pedindo carona. Provavelmente eram caçadores, pois carregavam cada um uma espingarda nas costas. E quem, em sã consciência, no meio do nada, pararia para dar a tal carona? Sem julgamentos antecipados, mas nessa hora e naquele mundo de Meu Deus, passou batido, sob o olhar incrédulo dos dois homens. Já no escuro da noite que era um breu, notou com grande alívio, lá no alto, uma casa na beira da estrada com as luzes acesas, indicando que havia moradores  naquele ermo. Com uma condução que o seguia há muito, agora dois caçadores que ficaram ao léu, e um pneu furado, carecendo de reparo, só lhe restava  ceder e parar para continuar mais tarde a jornada. Driblando o medo e fingindo coragem que na verdade não possuía, decidiu que era lá que passaria o resto da noite. Quem sabe até poderia dormir mais descansado, sabendo que haveria gente na casa, e isso gerava em sua alma um certo conforto e o punha mais tranquilo. Chegou lentamente no terreiro da casa, uma choupana simples de madeira descorada, a porta de entrada e a janela iluminadas, dando a entender que a nesga de luz era de lamparina ou lampião. Sentiu-se seguro, pois a essa altura o veículo que o seguia passou reto, sem ter notado que estava embaixo das árvores escuras que ladeavam a casa. Deu um suspiro de alívio, mas sabia que era só o começo da noite. Ainda restavam os caçadores que vinham na mesma direção. Muita água ainda passaria embaixo da ponte, até o dia amanhecer. Acomodou-se como pôde, notando movimento de ir e vir dos moradores dentro da casa, e a luz da lamparina que projetava sombras na janela de madeira larga, entreaberta. Começou a trocar o pneu furado, fazendo barulho para que os moradores lhe oferecessem ajuda. Mas, quê nada! Ninguém saiu em seu auxílio. Fez o serviço sozinho sem deixar de pensar "como são vagabundos esses caboclos! Não querem mesmo saber de esforço nenhum" O cansaço era imenso, e a poeira, o calor, a tensão, tudo isso ajudava a antecipar ainda mais o sono que batia bem forte nesse momento. Mas, foi o medo dos dois caboclos que ainda passariam por ali que fez com que tivesse a ideia de tomar a direção do mato e, sentando-se sobre um toco recém-cortado, escondido pelas folhagens,  no escuro, decidiu que era ali que passaria o resto da noite. Preparou-se como pôde para dormir, sabendo que ao menos havia os moradores a somente alguns passos de si, como eventual companhia. Ouvia corujas piando, animais quebrando gravetos na mata ao lado, bichos que rosnavam na noite escura, todos em busca de sua presa ou de um abrigo para atravessar a noite. Sentia esses movimentos ao redor, mas as pálpebras teimavam em se fechar, até que por fim apagou de vez, nada mais o incomodando. Foi só lá pela madrugada, já no lusco-fusco do dia que ia chegando, que despertou e reconheceu onde estava. Olhou para fora da mata onde se achava  e viu que a moradia não tinha mais luz, nem se ouvia barulho dos moradores. O sol ainda demoraria muito em estender seus raios sangrentos em todas as direções e o dia estava longe, muito longe para romper. Foi até camionete e deu graças pelo fato de os dois caboclos com espingardas já terem passado por ali, de velho. Deles, não havia nem rastro mais. Ajeitou as roupas, tentando se aquecer como podia, e pensou em pedir um café aos moradores, em troca de alguns trocados que tinha no bolso, ou algum mantimento que levava consigo para a fazenda. Olhou ao redor e, caminhando até a porta da casa, entreaberta, chamou "Ô de casa!", algumas vezes, Esperou alguns segundos, mas não obtendo resposta, dirigiu-se então à janela, que estava também entreaberta. Chamou duas, três vezes e, de novo, nada de resposta. Resolveu então ir até a porta e abri-la. Se os moradores estivessem dormindo, daria uma desculpa qualquer. Assim fez. Chegou à porta de madeira e empurrou-a, abrindo-a completamente. Adentrou alguns passos e, estupefato, parou ali mesmo, seus olhos procurando com rapidez algo que lhe desse a certeza que não era sonho, nem pesadelo, nem tampouco miragem. A choupana estava simplesmente deserta; não havia morador, não havia lampião, lamparina, não havia nada! Estava deserta, com as paredes em ruínas, teias de aranhas por todo lado, ninhos de tico-tico nas cumeeiras, mas nem sinal de viva alma. Um arrepio mortal deslizou por sua espinha, o cabelo eriçou e a coragem desapareceu naquele momento de absurdo. Correu para o veículo, ofegante e, com os pensamentos emaranhados pelo insólito do ocorrido, deu a partida, procurando não olhar para trás. Andou muito tempo assim, no limiar do desentendimento, da incerteza, da descrença em si próprio em relação ao que vira e ouvira. Chegou à fazenda de tardinha, naquele mesmo dia. Não comentou com ninguém, não relatou o ocorrido, aliviado por estar entre parentes e em segurança. Ainda hoje, quando relembra o fato, pergunta a si mesmo se tudo não passou de alucinação, de devaneio, de coisas de sua cabeça. Por via de dúvidas, nunca mais tomou aquela estrada, nunca mais fez o mesmo caminho. Contou-nos essa história, anos mais tarde, na tentativa de certificar-se que o fato fora mesmo real, na esperança de que alguém dissesse que existem mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vão filosofia.    

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Neide Albano